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Série gestão com intenção: Da visão à geração de valor | Edição 1 de 4

07 de agosto de 20269 min de leitura
Série gestão com intenção: Da visão à geração de valor | Edição 1 de 4

O futuro que orienta o presente

Como visão, planejamento e clareza transformam projetos em valor

Há sonhos que chegam prontos, quase como uma ideia que pede passagem. Outros precisam de tempo. São pensados, questionados, amadurecidos e reorganizados muitas vezes antes de ganharem forma.

Minha empresa nasceu assim.

Costumo dizer que ela foi gestada junto com o meu filho. Enquanto uma vida crescia dentro de mim, outro projeto também começava a existir, ainda silencioso, sem nome definido, sem estrutura pronta e sem a segurança de quem conhece todo o caminho. Havia, porém, uma intenção. Uma imagem de futuro. Algo que eu ainda não conseguia explicar por completo, mas já conseguia enxergar.

Dois anos depois do nascimento do meu filho, a empresa nasceu oficialmente.

Ela chegou ao mundo tímida, como chegam muitos projetos importantes: com propósito, mas ainda procurando sua voz; com conhecimento, mas aprendendo a se posicionar; com vontade de crescer, mas sem revelar imediatamente tudo o que poderia se tornar.

Hoje, ela começa a ganhar a expressão de quem já sabe onde quer chegar.

E este site faz parte dessa história.

Durante muito tempo, ele foi um sonho dentro de um sonho maior. Eu o analisei, pensei, ponderei e esperei. Não porque me faltasse vontade, mas porque algumas decisões precisam de maturidade para produzir o valor que delas se espera. Chega um momento em que planejar deixa de ser apenas imaginar possibilidades e passa a significar assumir uma direção.

Foi nesse processo que uma frase de Stephen R. Covey ganhou ainda mais sentido para mim:

“Comece com o objetivo final em mente.”

Covey apresenta esse princípio como a capacidade de visualizar o destino desejado e, a partir dele, orientar escolhas, prioridades e ações. Não se trata de prever cada detalhe do caminho. Trata-se de saber qual futuro queremos ajudar a construir.

Mas existe uma etapa anterior ao começo visível.

Antes de começar, é preciso gestar.

O que antecede um projeto que realmente gera valor?

Na gestão de projetos, aprendemos a transformar uma intenção em algo estruturado: compreender uma necessidade, definir objetivos, reconhecer as partes interessadas, avaliar recursos, mapear riscos, estabelecer prioridades e criar critérios de sucesso.

Entretanto, nenhum desses elementos deveria nascer apenas de uma lista de tarefas. Antes do cronograma, existe uma pergunta estratégica: por que este projeto precisa existir?

Essa pergunta muda tudo.

Sem ela, podemos executar muito e transformar pouco. Podemos cumprir prazos, concluir entregas e, ainda assim, não gerar o impacto esperado. Um projeto não se torna valioso apenas porque terminou. Ele gera valor quando aquilo que foi entregue produz uma mudança relevante para alguém.

O PMI - Project Management Institute estabelece uma conexão importante entre estratégia, entregas, resultados, benefícios e valor. Em outras palavras, a entrega é somente parte do caminho. Um site, por exemplo, é uma entrega. O valor está no que ele torna possível: comunicar com clareza, fortalecer uma identidade, aproximar pessoas, compartilhar conhecimento, construir confiança e abrir novas oportunidades.

Essa diferença parece simples, mas ainda representa um desafio para muitas organizações. Em relatório sobre realização de benefícios, o PMI apontou que 83% das organizações avaliadas apresentavam baixa maturidade nessa área. Isso significa que muitas empresas ainda encontram dificuldade para acompanhar se seus projetos efetivamente produzem os benefícios que justificaram sua criação.

Talvez isso aconteça porque fomos ensinados a celebrar o que conseguimos concluir, mas nem sempre a avaliar o que conseguimos transformar.

Ter direção não significa controlar todo o caminho

Começar com o objetivo final em mente não é criar um plano rígido e exigir que a realidade obedeça a ele. Estratégia não é imobilidade. Um bom objetivo oferece direção; um bom planejamento permite adaptação.

A pesquisa de Edwin Locke e Gary Latham, construída a partir de 35 anos de estudos sobre definição de metas, mostrou que objetivos específicos e desafiadores tendem a favorecer um desempenho superior ao de orientações vagas, como simplesmente “faça o seu melhor”. Os autores também destacam condições essenciais para que as metas funcionem: clareza, comprometimento, feedback e consideração da complexidade da tarefa.

Portanto, não basta desejar o futuro. É necessário criar referências que nos ajudem a tomar decisões no presente.

No universo corporativo, isso vale para uma empresa, um projeto, uma equipe e também para uma carreira. Quando o objetivo final não está claro, toda oportunidade parece igualmente importante, toda urgência parece prioritária e toda mudança de direção parece estratégica. Sem um critério central, é fácil confundir movimento com progresso.

Ter um objetivo final em mente ajuda a responder:

  • O que merece receber minha energia agora?

  • Que oportunidades me aproximam do futuro que desejo construir?

  • A quem pretendo gerar valor?

  • Que transformação quero tornar possível?

  • Como saberei que avancei?

Essas perguntas não eliminam a incerteza, mas reduzem a ambiguidade. E isso já modifica a qualidade das escolhas.

Uma pesquisa da Harvard Business Review Analytic Services, realizada com 372 executivos em 2022, mostrou que 82% consideravam o uso de objetivos estratégicos extremamente ou muito importante para o sucesso geral de suas organizações. O dado confirma algo que a prática revela diariamente: quando as pessoas compreendem o destino, conseguem organizar melhor esforço, decisão e responsabilidade.

Mas existe um cuidado necessário. A meta não pode se tornar mais importante do que o valor que deveria produzir. Quando o objetivo é tratado apenas como um número, podemos alcançá-lo e, ainda assim, enfraquecer relações, comprometer a qualidade ou perder o sentido original daquilo que estávamos construindo.

O objetivo final precisa orientar a execução, não justificar qualquer execução.

Entre esperar e amadurecer

Também existe uma diferença entre adiar por medo e esperar com consciência.

Nem toda espera é procrastinação. Às vezes, esperar significa observar melhor, reunir repertório, fortalecer uma identidade, testar possibilidades e compreender o momento certo de assumir determinada escolha. O risco está em transformar a busca pelo “momento perfeito” em uma forma de nunca começar.

Hoje, percebo que o site não nasceu no momento perfeito, porque momentos perfeitos provavelmente não existem. Ele nasceu quando o projeto estava maduro o suficiente para avançar e vivo o suficiente para continuar evoluindo.

Essa talvez seja uma das maiores lições da gestão e da vida: clareza não significa ter todas as respostas. Significa ter uma direção suficientemente verdadeira para dar o próximo passo.

Minha empresa mudou ao longo do caminho porque eu também mudei. O conhecimento cresceu, a experiência se ampliou, o propósito ganhou contornos mais nítidos e a comunicação encontrou uma voz mais segura. O objetivo final não funcionou como um ponto fixo e distante. Ele funcionou como um critério para reconhecer o que deveria permanecer, o que precisava ser ajustado e o que já não fazia sentido carregar.

Projetos vivos são assim. Eles preservam sua essência sem impedir sua evolução.

O site como marco, não como chegada

Por isso, não vejo este site como a conclusão de um projeto. Vejo como um marco.

Na gestão de projetos, marcos sinalizam momentos relevantes da jornada. Eles mostram que uma etapa importante foi alcançada, mas não confundem avanço com encerramento. Este espaço representa exatamente isso para mim: a materialização de algo que foi pensado durante muito tempo e, ao mesmo tempo, o início de uma nova forma de compartilhar conhecimento, experiências, perguntas e aprendizados.

Se a empresa foi gestada junto com meu filho, este site nasceu quando ela já começava a reconhecer o próprio rosto.

Agora existe mais clareza sobre quem somos, a quem queremos servir e que valor desejamos gerar. Não uma clareza arrogante, que acredita conhecer todas as respostas, mas uma clareza consciente, que sabe por que está caminhando.

E talvez seja essa a reflexão que desejo deixar neste primeiro artigo.

No trabalho e na vida, passamos muito tempo respondendo ao que é urgente. Cumprimos agendas, resolvemos problemas, atendemos demandas e avançamos de uma entrega para outra. Mas, em algum momento, precisamos interromper o movimento automático e perguntar se o caminho ainda nos aproxima daquilo que desejamos construir.

Porque eficiência é fazer bem. Estratégia é escolher o que merece ser feito. E valor é a transformação que essa escolha produz.

Então, faço a você o mesmo convite que fiz a mim durante este processo: reserve um momento para olhar além da próxima tarefa, do próximo prazo ou da próxima meta.

Pense no projeto que você está conduzindo, na empresa que está construindo, na liderança que está exercendo ou na trajetória profissional que deseja desenvolver.

Você tem o seu objetivo final em mente?

E, se tem, as suas escolhas de hoje estão ajudando a gestar esse futuro?

Se a sua organização deseja transformar visão em direção, comunicação em alinhamento e conhecimento em resultados, este também pode ser o início de uma conversa.

Sobre a autora

Rúbia Camargo é engenheira agrônoma, doutora em Agronomia, especialista em Segurança do Trabalho, palestrante e mentora executiva. Atua no desenvolvimento de líderes e equipes, conectando comunicação, estratégia, segurança e geração de valor ao universo corporativo do agronegócio.

Referências

COVEY, Stephen R. Os 7 hábitos das pessoas altamente eficazes. São Paulo: BestSeller, 2017.

FRANKLINCOVEY. Habit 2: Begin With the End in Mind. Disponível em: https://www.franklincovey.com/courses/the-7-habits/habit-2/. Acesso em: 6 ago. 2026.

HARVARD BUSINESS REVIEW ANALYTIC SERVICES. Implementing Strategic Goals for Organizational Success. 2022. Disponível em: https://hbr.org/sponsored/2022/09/implementing-strategic-goals-for-organizational-success. Acesso em: 6 ago. 2026.

LOCKE, Edwin A.; LATHAM, Gary P. Building a practically useful theory of goal setting and task motivation: A 35-year odyssey. American Psychologist, v. 57, n. 9, p. 705–717, 2002. DOI: https://doi.org/10.1037/0003-066X.57.9.705.

PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Benefits Realization Management: A Practice Guide. Newtown Square: Project Management Institute, 2019. Disponível em: https://www.pmi.org/standards/benefits-realization. Acesso em: 6 ago. 2026.

PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Delivering Value: Focus on Benefits During Project Execution. Disponível em: https://www.pmi.org/learning/thought-leadership/pulse/focus-on-benefits-during-project-execution. Acesso em: 6 ago. 2026.